Biografia

JANELAS PARA O INFINITO
                               A ARTE DE LEO FISSCHER

O artista plástico, fotógrafo e poeta holandês Leo Fisscher está constantemente em busca do novo. Fisscher tateia, intui e busca mais adiante, para além do conhecido e do senso comum, sem comprometer-se com o “déja vu”. O que se vê no seu trabalho é a sua rica biografia; a sua história de vida reflete a devoção ao trabalho.

Antes de completar seus estudos na Faculdade de Psicologia na Universidade de Amsterdam, parte para Nova York, em busca do seu “chamado interior”. Mas a realidade em Nova York aos 22 anos é dura, e Leo Fisscher subsiste à custa de empregos temporários, enquanto completa seus estudos na New York State University, onde recebe o diploma de Bachelor of Arts. Ironicamente, a experiência de pintar paredes de apartamentos nova-iorquinos coloca-o um passo adiante na sua busca vocacional.

Depois de viver nove anos em Nova York, Fisscher retorna à Holanda.

Em 1989 ele atravessa novamente o Atlântico, desta vez rumo ao Brasil, onde se instala inicialmente em Brasília e, em seguida, no Rio de Janeiro. Para Fisscher, o Brasil traz uma nova dedicação à pintura e a realização da sua verdadeira vocação.

 

A religiosidade da arte

Leo Fisscher não encontraria satisfação na arte caso não pudesse expressar o que lhe é mais essencial. “Toda arte que merece esse nome, tem um caráter religioso”, disse o pintor francês Henri Matisse e Fisscher identifica-se com esta afirmação. Numa carta a Frederico Moraes, conhecido crítico de arte brasileiro, Fisscher escreve: “A verdadeira arte tem uma força fenomenal. É um antídoto contra a destruição da humanidade e, por esta razão, nem sempre é aceita. A verdadeira arte é subversiva porque toca o coração. Esta é a sua função, a sua ‘raison d’être’.” E mais adiante: “Talvez seja tempo de um novo movimento artístico. Desta vez, não baseado num estilo, mas sim na ética e na verdade.”

Autodidata, Leo Fisscher trabalha intensamente, sem preocupar-se em criar um estilo pessoal. Para ele, a busca constante é mais importante do que a cristalização do que já foi alcançado. Se as descobertas tivessem como resultado a repetição das formas, então a aventura inerente ao percurso da busca evapora.

Durante a sua permanência no Brasil, Leo Fisscher recebe o apoio e a orientação da renomada plástica Fayga Ostrower, cuja arte tem sido mostrada em museus de todo o mundo, inclusive no Stedelijk Museum de Amsterdam (1959). As primeiras exposições do trabalho de Fisscher realizadas no Brasil recebem o reconhecimento positivo da crítica. Em 1994, Fisscher retorna à Holanda por alguns anos. Seu atelier é localizado em Nieuwmarkt, bairro histórico do centro de Amsterdam.

Recentemente, Ferreira Gullar, e Walter Firmo têm escrito sobre sua arte.
Sua exposição mais recente (2011) realizou-se no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

 

Em busca de ouro

Fisscher pinta do mesmo modo que come e vive: sem temas nem esboços pré-concebidos, aplica imediatamente a tinta sobre a tela, camada sobre camada. Para ele, a tela se apresenta não apenas como um suporte ou uma superfície bi-dimensional, mas como uma janela aberta para o infinito. Ao pintar, Fisscher busca uma abertura para o mundo imensurável. Ele percebe a arte como um processo alquímico. Procura o “ouro”, buscando encontrar o momento em que a tinta se transforma no espiritual. Mas não se trata de uma tarefa simples, tampouco de uma entrega mística sem luta interior. Muito menos é ele um expressionista de gestos explosivos. Ele trabalha calmamente, até sentir a pintura atingir um equilíbrio. É nesse momento que a pintura transmite uma harmonia, um sentido, que não necessita de explicação.

Quem vê a sua produção ao longo dos anos, percebe a coerência dentro da diversidade. Embora Fisscher faça uso de um intenso jogo psicodélico de cores e linhas, existe uma sutil profundidade atmosférica nas suas pinturas. Através das texturas produzidas pelas grossas camadas de tinta acrílica, o que mais atrai nossa atencão é a sutileza de um mundo misterioso onde figuras indefinidas movimentam-se harmoniosamente. Por exemplo, ao olhar-se intensamente para “Rhapsody in Red”, de 1994, tem-se a sensação de ser atraído para dentro do movimento e das profundezas do vermelho rapsódico. Assim como Fisscher entrega-se inteiramente ao ato de pintar, também solicita ao espectador uma entrega absoluta. A sua é uma arte que em parte desorganiza os sentidos, em parte ultrapassa-os. Quem quiser realmente penetrar nesta “outra realidade” precisa olhar com o coração. Embora apresentem-se em formas variadas, todas as pinturas de Leo Fisscher possuem esta qualidade da metamorfose. Não se trata de um estilo artístico fabricado, mas sim de uma atitude de não comprometer-se com restrições mentais.

 

Bas Donker van Heel

Jornalista e crítico

 

Amsterdam, 26 de março de 2012